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O cérebro e o pensamento * Georges Canguilhem É certo que cada um de nós se envaidece por ser capaz de pensar, e muitos até gostariam de saber como é possível que pensem como de fato pensam.Ao que tudo indica, entretanto, essa questão já deixou manifestamente de ser puramente teórica, pois parece-nos que um número cada vez maior de poderes estão se interessando em nossa faculdade de pensar.E se, portanto, procuramos saber como é que nós pensamos do modo como o fazemos, é para nos defender contra a incitação sorrateira ou declarada a pensar como querem que pensemos.Com efeito, muitos se interrogam a respeito dos manifestos de alguns círculos políticos a respeito de certos métodos de psicoterapia dita comportamental e a respeito dos relatórios de certas empresas de informática.Eles acreditam estar discernindo aí a virtualidade de uma extensão programada de técnicas que objetivam, em última análise, a normatização do pensamento.Para simplificar sem, espero, deformar, bastará citar um nome: o de Leonid Pliouchtch, e uma sigla: a da I.B.M. * Conferência na Sorbonne para o M.U.R.S. (dezembro de 1980); primeira publicação em Prospective et Santé, n. 14, .verãode 1980, pp.81-98.Os subtítulos que haviam sido acrescentados pela revista foram suprimidos.A ordem de alguns parágrafos que haviam sido invertidos foi restabelecida de acordo com as indicações de Canguilhem (N.E.).(In: Georges Canguilhem -Philosophe, historien des sciences.Actes du Colloque, 6-8 dezembro de 1990.Paris, Albin Michel).Agradecemos a Bernard Canguilhem a autorização para publicarmos essa tradução de Georges Canguilhem (N.E.).Natureza Humana 8(1): 183-210, jan.-jun.2006 Georges CanguilhemDa mesma forma que os biólogos acharam que só podiam falar do cérebro humano situando esse cérebro no extremo de uma história dos seres vivos, parece-me também apropriado, para começar uma palestra sobre o cérebro e o pensamento, situar essa questão, antes de mais nada, na história da cultura.Se, hoje, é fato notório ser o cérebro humano o órgão do pensamento, é preciso, entretanto, lembrar que um dos maiores filósofos da Antiguidade, Aristóteles, ensinava que a função do cérebro, antagonista da do coração, é a de arrefecer o corpo do animal.Foi Hipócrates quem ensinou que o cérebro é a sede das sensações, o órgão dos movimentos e dos juízos.É o que prova o tratado hipocrático Da doença sagrada (isto é, a epilepsia).Essa doutrina, retomada em parte por Platão, notadamente no Timeu, deve a Galeno o fato de ter-se imposto na cultura ocidental.O aristotelismo militante de Galeno não o desviou da tarefa de procurar a confirmação da tese hipocrática, praticando experiências muito engenhosas no sistema nervoso e no cérebro.Tendo recebido de suas origens e conservado no correr dos séculos a feição de uma questão concernente à sede da alma, nosso problema de hoje vem suscitando, a partir da filosofia cartesiana, uma filiação de teorias e uma sucessão de polêmicas de que somos hoje os herdeiros.É indispensável que façamos um rápido histórico para identificar a época em que devemos iniciar nosso exame.Trata-se do século XIX, momento em que se travou o combate do positivismo contra o espiritualismo: a teoria das localizações cerebrais.Costuma-se, com demasiada freqüência, situar o início desse histórico em Descartes.Isso é um perfeito contra-senso.Descartes ensinava que a alma indivisível está unida ao corpo por inteiro por meio de um órgão único e, por assim dizer, fisicamente pontual: a glândula pineal (o conarium dos antigos, a nossa epífise) 1 .Não se tratava, portanto, de unir um pensamento dividido a um organe fédéral (órgão central do governo).
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