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Introdução 1Ao ser convidado, em 2002, para integrar um grupo de pesquisa formado por lingüistas e historiadores da USP sobre surdos em São Paulo, a primeira reação foi de surpresa, pois pouca ou nenhuma familiaridade tinha com o tema.Quando, porém, me foi explicado o motivo do convite, contribuir com o enfoque antropológico -e em especial com o da antropologia urbana -a uma pesquisa já em andamento, que incluía descrição da língua de sinais brasileira, LIBRAS (por parte dos lingüistas) e registro de histórias de vida (por parte dos historiadores), a proposta começava a fazer sentido.O pedido era para identificar a rede de sociabilidade dos surdos na cidade, a partir das categorias de pedaço, mancha, trajeto, circuito utilizadas em pesquisas do Núcleo de Antropologia Urbana.O mês em que ocorreu o convite também teve seu papel nos rumos em que essa participação se deu.Era época das festas juninas que tomam conta de escolas, instituições, associações de bairros, paróquias, clubes, etc. e a pergunta que se colocava era: as escolas e associações de surdos também promovem essas comemorações?E outra indagação, inevitável, logo veio à tona: festa junina de surdo tem música? 2 Para quem havia estudado diferentes formas de lazer na cidade, o estudo das festas não apenas é um recorte obrigatório como ademais constitui sempre uma via de acesso privilegiada para o entendimento das regras que estão na base de redes de sociabilidade.Neste caso, além de ser uma boa opção, a novidade do tema prometia novos desafios.Antes, porém, de retomar as etnografias realizadas e seguir as pistas suscitadas pela indagação acima, faz-se necessário apresentar e desenvolver algumas questões prévias."Vai ter música?": : para uma antropologia das festas juninas de surdos na ci... Ponto Urbe, 1 | 2007 1 Surdo ou deficiente auditivo 3Convém começar com a básica e didática distinção entre a expressão "deficiente auditivo" e o termo "surdo", haja vista a confusão que ainda se faz entre eles mesmo no campo específico dos estudos sobre surdos, agravada pela suposição de que a primeira é mais "politicamente correta" que o segundo.Apesar de estabelecida e aceita em determinadas áreas do conhecimento e instituições voltados para esse tema, a distinção acima apontada não parece suficientemente difundida e reconhecida para além de um círculo ainda bastante reduzido de especialistas.No entanto, é uma distinção que delimita o campo onde a questão será colocada e trabalhada e define as ferramentas que serão utilizadas: ou se trata de uma questão afeita à patologia, de falta ou perda de uma capacidade natural, a ser tratada com os instrumentos apropriados para corrigi-la, talvez amenizá-la; ou, ao contrário, trata-se de um sinal distintivo, capaz de agregar pessoas que se reconhecem de alguma forma vinculadas entre si pelo fato de se comunicarem por uma modalidade -a gestual-visual -diferentemente do que ocorre com a imensa maioria dos usuários da modalidade predominante, auditivo-oral.Assim, ainda que no senso comum "deficiente auditivo" e "surdo" sejam tomados como sinônimos ou como índices de grau, eles apontam para campos de reflexão, atuação e atitudes diferentes.Se na área das ciências da saúde, por exemplo, esta condição é predominantemente encarada como uma falta, nas ciências humanas e sociais (lingüística, história, antropologia, pedagogia, ciências cognitivas e da mente) a tendência é encará-la sob o ângulo de uma marca distintiva, geradora de formas de comunicação, relações, valores, práticas e comportamentos específicos 1 .Essa dicotomia atravessa todo o campo -estudo, pesquisa e atuação -abrangendo os mais diferentes atores (inclusive os próprios surdos) e instituições voltadas para tratamento e ensino, políticas públicas, legislação, produção e comercialização de equipamentos, etc. e sugere a necessidade de, inicialmente, buscar estabelecer mais claramente as necessárias distinções. 4No campo em que a essa condição é encarada como patologia, considera-se população surda o conjunto de pessoas portadoras de uma disfunção especifica, a ausência ou perda da função auditiva classificada de acordo com o grau da afecção (profunda, severa, progressiva, lateral, pré-linguística, etc.), constituindo conjuntos de pacientes que são objeto de tratamento e estratégias diferentes.No outro campo, porém, o grupo de referência é constituído com base nas relações que seus integrantes estabelecem entre si, tendo em vista que simbolizam e se comunicam através de outras modalidades (principalmente a gestual-visual) que não a dominante (auditiva-oral).Neste caso, as distinções que se fazem são de outra ordem, e os termos habitualmente utilizados são "comunidade surda", "cultura surda", "mundo surdo", "minoria lingüística", "identidade surda" etc. 5Muitas dessas expressões são categorias que pertencem ao campo das ciências humanas e sociais onde são objeto de uma reflexão sistemática e que, para evitar ambigüidades, imprecisões e assim torná-las operativas precisam ser levadas em conta e retomadas à luz das matrizes em que surgiram e foram desenvolvidas. 6Esses campos de reflexão e pesquisa estão afeitos aos enfoques, entre outros, das áreas da Lingüística, História, Pedagogia e Antropologia, e seu propósito é encarar as questões relativas aos surdos -língua, cultura, aprendizagem, socialização, etc -com a "Vai ter música?": : para uma antropologia das festas juninas de surdos na ci... Ponto Urbe, 1 | 2007 9Um dos pressupostos lingüísticos da própria definição de qualquer língua "natural" é que esta surge e se desenvolve espontaneamente no seio de uma comunidade de falantes.No caso dos surdos, qual é sua comunidade?Eles não têm um território seu e, com exceção da famosa ilha Marta´s Vineyard, em Manhattan, não se conhece uma base territorial -país, aldeia, bairro -só de surdos, de forma a assegurar a necessária continuidade e co-presença de falantes nativos 3 .E na população mundial, em torno de 95 % dos surdos nascem de pais ouvintes, o que não lhes assegura condições de uma primeira socialização em contato com a língua de sinais e com a chamada cultura surda.10 Assim, é de se perguntar que tipo de comunidade eles formam, e aqui já entra a Antropologia, posto que este é um tema clássico de sua reflexão 4 .A própria língua de sinais, aliás, já fora objeto de interesse nos primórdios da disciplina, como se pode comprovar no trabalho de E.B.Tylor, Researches into the early history of mankind (1874), interesse que foi prejudicado pela desvalorização oficial e formal por parte do Congresso de Milão de 1880 5 .Comunidade e cultura: categorias nativas ou analíticas?11 Assim, comunidade surda -e também cultura surda, identidade surda, minoria lingüística, mundo surdo, etc.-é empregada freqüente e indistintamente nos mais variados contextos (acadêmicos, políticos, da vida cotidiana) e na maioria das vezes "Vai ter música?": : para uma antropologia das festas juninas de surdos na ci...
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