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seu arrependimento, para ajudar a limpar as paredes do túnel e suas imediações: o ato fazia parte do lançamento de mais um programa oficial antipichação.1 2 Relatado dessa forma, o episódio da pichação do Cristo Redentor, aberto e encerrado em 15 dias, evoca uma análise que pode se inspirar no conceito de drama social proposto por Swartz, Turner & Tuden (1966).De acordo com esse conceito, devemos compreender processualmente os fenômenos do campo político, seguindo as fases que levam da ruptura da ordem à sua restauração, mais ou menos preservada a situação de partida.Em suma, um monumento foi atacado por pichações, ato que se enquadra na definição de uma ilicitude.A sociedade e as autoridades mobilizaram-se para chegar aos culpados, que reconheceram seu crime e declararam-se arrependidos.Moralmente, procuraram se redimir apagando as pichações de outros espaços públicos.A estátua do Cristo Redentor, aliás, foi restaurada rapidamente, graças ao trabalho de limpeza que retirou a tinta aplicada pelos pichadores.Dois dias depois do evento, a imagem tinha recuperado sua brancura característica.Desse modo, a chuva e a pichação representariam, homologamente, em escalas distintas, períodos de liminaridade dentro da vida cidade.Assim como a cidade se restabelecia dos estragos da chuva, recuperava a integridade de um de seus símbolos mais (re)conhecidos.2 3 Contudo, as ideias que inspiram a elaboração deste texto seguem outras trilhas.Em sua colaboração para um conjunto de textos acerca de "termos críticos" para o estudo da religião, Michael Taussig (1997) sugere que, se aceitamos o lugar e a recorrência com que transgressões existem em fenômenos religiosos, então devemos aceitar também que são transgredidas "normas de intelecção profundamente arraigadas, segundo as quais fazer sentido equivale a fazer ordem" (p.350).Talvez Taussig tenha exagerado na distância que procura tomar em relação às ideias de Lévi-Strauss, Douglas e do próprio Turner, autores aos quais dirige sua crítica.Embora concorde que a ideia de ordem tenha lugar axial para esses autores -como mostra o conceito de drama social exposto acima -, a insistência com que cada um deles, a seu modo, enfoca as anomalias pode encontrar alguma convergência com as provocações do antropólogo australiano.Seja como for, o que tentarei fazer, adiante, é perturbar a interpretação da pichação do Cristo como uma simples quebra da ordem.Procurarei demonstrar que a pichação pode ser entendida dentro de um jogo de encadeamentos, os quais caracterizam a própria existência do monumento alvejado e a sua relação com a cidade que o abriga.Para tanto, será necessário acrescentar alguns elementos à narrativa do episódio -alguns dos quais propositalmente obliterei, outros cuja evidência será preciso trazer à tona.Será também necessário que eu me refira a elaborações, conceitos e procedimentos que têm para mim um papel de orientadores analíticos. 4Começo pela ideia de monumento, que nos últimos anos tem recebido alguma atenção por parte de historiadores, estudiosos da arte e, ainda em menor grau, antropólogos.Memória e passado são, evidentemente, palavras-chave em investigações sobre o papel desses curiosos objetos na representação do tempo considerando situações específicas.Por sua vez, dimensões referidas ao espaço jogam igualmente papel fundamental na compreensão dos monumentos, quando se enfoca sua localização e sua relação com os espaços públicos, ou os percursos que lhes dão acesso.Ambos os eixos, além disso, abrem um canal de comunicação entre os monumentos e outras formas ou instituições que trabalham como o tempo e o espaço em suas construções sociais.É o caso dos museus e do que podemos chamar de arquitetura pública.Essas várias excursões analíticas em torno dos monumentos são impulsionadas pela constatação do caráter fortemente contestado que O Cristo Pichado
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