No open-access location is known for this record yet.
No open-access location is known for this record yet.
Apresentação no III Seminário Aberto 2006, organizado pelo Instituto de Estudos Medievais da Universidade Nova de Lisboa (25 de Maio / 2006) O Bestiário ou Livro das Bestas assume-se como uma obra singular no âmbito da literatura da Idade Média.Em primeiro lugar, por nele se descreverem várias espécies animais, sejam elas existentes ou não.Em segundo lugar, por subordinar essa descrição a uma interpretação de cariz simbólico e alegórico.Em terceiro lugar, ao integrar iluminuras que se cruzam com o texto escrito, estabelecendo com ele um diálogo permanente.Por fim, porque se constitui como uma obra literária que se circunscreveu à época medieval que o viu nascer e morrer.Todos estes aspectos se relacionam mutuamente como passaremos a demonstrar.O Bestiário organiza-se em torno de pequenas narrativas que descrevem várias espécies animais, com propósitos morais e didácticos.Neste sentido, cada uma dessas narrativas é composta por duas partes distintas: uma parte descritiva de sentido literal (a descrição, proprietas ou naturas) e a sua moralização e interpretação teológica de sentido simbólico-alegórico (também designada como moralização, moralitas ou figuras).Os termos que aqui adoptamos, naturas e figuras, são utilizados, por exemplo, no Bestiaire de Philippe de Thaon.Subordinando a naturas à figuras, na maioria das vezes por intermédio da citação bíblica que organiza as narrativas, o Bestiário remete para o modo de significação característico da Idade Média: nele os animais deixam de ser apenas animais para se assumirem como exempla, isto é, como simbolos de vícios ou virtudes e fonte de ensinamentos religiosos e morais.Por este motivo, embora muitos críticos tenham defendido o carácter científico do Bestiário, a descrição dos animais nele apresentada não pretende ser factual.Na verdade, ele afasta-se, em larga medida, dos Tratados de História Natural e até dos seus congéneres mais próximos: os herbários e os lapidários, estes últimos fornecendo, respectivamente, uma descrição detalhada de plantas e pedras, não com propósitos didácticos e moralistas, mas com o objectivo de veicular a sua utilidade prática para fins medicinais.O que nele se procura transmitir, pelo contrário, é uma verdade espiritual de ordem cristã, preocupação para a qual terá contribuído o facto de ter sido produzido nos mosteiros e destinado a um público religioso -noviços e conversos (sendo os últimos pessoas que se Medievalista on line ano 2 • número 2 • 2006 © IEM -Instituto de Estudos Medievais 1 www.fcsh.unl.pt/iem/medievalistaA Idade Média e o Bestiário • Angélica Varandas haviam convertido à vida monástica numa fase mais tardia das suas vidas e que, por isso, não podiam celebrar o ritual religioso)-para o qual funcionava como manual de estudo.Para exemplificar estas afirmações, recorramos à narrativa do leão, o primeiro animal a ser habitualmente descrito nos manuscritos dos bestiários.De acordo com os bestiários, são três as características do leão: o animal apaga com a cauda o próprio rasto para não ser capturado por caçadores; dorme de olhos abertos; e a fêmea dá à luz as crias mortas.De acordo com a última característica, a leoa, durante três dias, vigia os corpos inanimados dos seus filhos e ao terceiro dia, diz o Fisiólogo, é o rugido do pai que os acorda para a vida: 1 After birth he does not wake up until the sun circles for the third time, but his father rouses him by giving a roar; then, so to speak, he comes alive, then he takes hold of his five senses and he never shuts his eyes however often he sleeps.2 No Bestiário, o rugido é transformado em sopro:(...) on the third day the father comes, blows in their faces, and awakens them to life. 3 A alusão bíblica não poderia ser mais explícita: também o Senhor acordou o Seu Filho ao terceiro dia, ressucitando-O para a vida eterna.O leão é, assim, símbolo animal de Deus Pai e de Deus Filho ressuscitado, como se afirma no bestiário MS.Ashmole 1511: au troisième jour surgit leur père qui souffle sur leurs corps et leur insuffle la vie.Ainsi fit le Tout-Puissant pour Notre-Seigneur Jésus-Christ qu'il ressuscita des morts le troisième jour.4 Aqui, a voz é o sopro da vida, o mesmo sopro com que Deus criou o primeiro homem -Adão -e ressuscitou também para a vida o seu anti-tipo -Cristo.5 O sopro é, portanto, sinónimo da Palavra criadora, remetendo também para a respiração e, mais precisamente, para a expiração, outro símbolo de vida.1 O Fisiólogo parece ser o primeiro texto a referir o facto de as crias do leão nascerem sem vida.A ideia, contudo, pode ter tido origem em Plínio que cita Aristóteles, para quem as crias nascem muito pequenas e sem forma. 2 in P. T. Eden (ed.), Theobaldi Physiologus, Leiden und Koln, E. J.
Loading…
Stored only when both papers are in the corpus — 3 citations exist upstream.
Papers that cite the same references — the relational fallback while embeddings are still backfilling.
Imported from OpenAlex (CC0) — nothing here is generated.