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Por que ter medo se o futuro é a morte?(autor desconhecido)Por muito tempo essa epígrafe cruel me feriu os olhos e a alma no caminho do trabalho para a FIOCRUZ.Estava estampada entre muitas pichações nos muros da Favela de Manguinhos, que margeiam a Rua Leopoldo Bulhões, no Rio de Janeiro.Ao ler com carinho e emoção o trabalho de Otávio Cruz Neto e seus companheiros -Nem Soldados nem Inocentes: juventude e tráfico de drogas no Rio de Janeiro -, essa frase brotou vívida em minha memória, passando antes por uma profunda invasão emocional.A emoção se deve ao tema em pauta, mas, sobretudo, por causa do encontro interior com Otávio e seu grupo e pela trajetória que temos feito juntos, articulando a lide acadêmica com a responsabilidade social.A lembrança trazida na epígrafe e todo o conteúdo e forma do livro me levam a propor ao leitor que caminhe conosco na desnaturalização dos processos sociais de exclusão que a dita frase insinua: a desesperança dos jovens que vivem nas favelas; a sensação de desnecessidade de sua contribuição para a sociedade; o destemor a que a realidade os obriga; e em contraponto, a ostentação e a crueldade crescentes com que muitos deles matam, transgridem e afrontam a sociedade.Nunca soube interpretar muito bem a expressão colocada em epígrafe, nem como responder à pergunta exposta (será para chocar?).Mas a inquietação continua nas linhas e entrelinhas da obra realizada pelos colegas a quem tenho a honra de prefaciar.O livro Nem Soldados nem Inocentes trata de adolescentes pobres, alguns vivendo em situação de miséria, cativados ou enredados como trabalhadores do ilegal, perigoso e sedutor mercado de drogas (cocaína e maconha) no Rio de Janeiro.Compõe uma construção intelectual comovente porque mistura compreensão e peculiar metodologia hermenêutica que se funda na empatia necessária com os sujeitos pesquisados.Essa necessária empatia é o que dá o tom da obra, porque, ao mesmo tempo, focaliza as determinações e o lugar dos sujeitos, tratando-os como pessoas capazes de, até nas piores condições, tomar decisões, dentro de um possível social muito limitado, mas sempre existente e sempre possível.Essa linha de reflexão, que atravessa o estudo, é fundamental porque deixa sempre aberta a janela da mudança e a crença no protagonismo social e pessoal.Aliás, a meu ver, essa é a única filosofia capaz de fundamentar qualquer ação de eficácia pedagógica, do ponto de vista da cidadania, num universo de tão poucas chances, em que a representação das determinações ou o fatalismo dos próprios jovens tende a se cristalizar em frases como "por que ter medo, se o futuro é a morte?".O olhar de proximidade sobre os inúmeros tentáculos do fenômeno se assenta na experiência riquíssima de Otávio, ao se aproximar de forma crítica das práticas concretas de aplicação das políticas sociais.Como os seus amigos e companheiros de trabalho do Centro Latino-Americano de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (CLAVES) costumamos dizer: "Otávio é um Ph.D. em trabalho de campo".Eu diria que ele tem também pós-doutorado em análise de aplicação das políticas sociais, pois nesse particular, desenvolveu um método de trabalho peculiar, no qual, ao mesmo tempo em que busca compreender, interfere propositalmente, apontando caminhos e acenando para as possibilidades de mudanças.Método sui generis, que poderia receber a interdição dos seus colegas sociólogos stricto sensu, se não tiverem sensibilidade suficiente para perceber a urgência de transformações imediatas, para os que necessitam dessas políticas ou sofrem por causa delas.Em todos os sentidos expressos no parágrafo anterior, diria que o trabalho de Otávio e seus colaboradores, embora se refira ao espaço específico do Rio de Janeiro, tem valor universal.Isso porque, fazendo uma metaanálise do texto em questão, chego à conclusão de que nele estão em jogo três temas fundamentais e muito fortes da sociologia: o primeiro diz respeito aos aspectos históricos do 13 grupo social analisado e das determinações estruturais e conjunturais que criam o contexto de suas condições, situações e estilos de vida; o segundo trata do campo mediador das políticas sociais em geral e específicas, para mudar ou para contribuir nas transformações do quadro das determinações ou das pessoas que se envolvem em atividades e atos ilegais; o terceiro aspecto se refere ao campo da liberdade humana própria de cada indivíduo, no caso concreto, de cada jovem sob cumprimento de medidas socioeducativas, de fazer opções, de correr riscos, de aceitar ou de rejeitar os apelos do tráfico de drogas.Tais dilemas são universais na sociedade brasileira.É sobre esses três pontos que tecerei considerações.O trabalho revela, em primeiro lugar, que a situação do mercado de drogas do Rio de Janeiro não é uma invenção passageira.Ele se radica em condicionamentos muito maiores e mais amplos, que não podem ser eliminados com a mera política de repressão dos órgãos de segurança pública.Ele tem história, e nessa história se complementam dialeticamente a busca existencial e ancestral dos seres humanos por substâncias que alteram seu estado de consciência e de percepção: "um homem em cada quatro, ou seja, mais de um bilhão de pessoas no mundo buscam na droga alguma coisa diferente do seu modo rotineiro de ver e pensar" (Baptista et al., 2000:7); e as interdições históricas e culturais.Numa escala mais próxima, no Rio de Janeiro, além das razões universais, estão combinadas, na produção do fenômeno, as condições socioeconômicas adversas de mais de um quarto da população residente, de cujo total uma parcela encontra, no mercado das drogas, possibilidades de trabalho e de consumo; as peculiaridades da distribuição da população carioca no espaço urbano; os fortes interesses econômicos estabelecidos no comércio de tóxicos; as tentadoras articulações entre a legalidade e a ilegalidade; e, sobretudo, as poucas chances da população que hoje trabalha no comércio varejista das drogas de conseguir se inserir no mercado formal de trabalho.Esses pontos estão tratados numa complexa visão dos atores, fazendo esses termos abstratos mencionados por mim, se tornarem sangue e alma a partir de uma análise situacional fundada em dados empíricos e na lógica dos sujeitos envolvidos.Sobre isso é muito importante somar à forma como os autores tratam o fenômeno a contribuição de Wieviorka (1997), que analisa num alto nível de abstração a particularidade das expressões de violência social no contexto atual.Esse autor mostra o que há de específico na violência típica nessa etapa do capitalismo globalizado, cuja ênfase quase absoluta se dá ao lucro e ao consumo, uma vez que ainda não estão estabelecidos os limites ou barreiras de tolerância da 'questão social'.Wieviorka interpreta a violência pós-moderna, com realce no tráfico de drogas, diferenciando-a das expressões de épocas anteriores, por exemplo, a que era característica dos anos 60 e 70 passados.Em tais décadas predominavam as expressões de conflitos políticos, as formas de protesto e até a luta armada, em movimentos vinculados a propostas revolucionárias e a projetos sociais desenvolvimentistas.Era nesses movimentos que a juventude se engajava.No caso do Brasil, a história mostra que em várias circunstâncias houve projetos comuns unindo os anseios da classe trabalhadora e da classe média.Diz Wieviorka (1997), em suas análises, que, embora em algumas partes do mundo ainda ocorram experiências como as dos anos 60 e 70, hoje as expressões de violência se deslocam para fenômenos de ordem infra ou metapolítica.O seu caráter infrapolítico está associado à degenerescência, cada vez mais evidente, do fenômeno político em si, em favor de uma privatização ligada aos desejos de controle econômico, de possuir muito dinheiro rapidamente, de consumismo ou de vingança social.Dessa forma, a estratégia da violência atual não é mudar o Estado, como queriam os revolucionários.É mantê-lo à distância, enfraquecê-lo, privatizá-lo ou corrompê-lo para criar uma autonomia das atividades econômicas à margem de todo o aparato legal.O jogo financeiro e especulativo proveniente do tráfico de drogas, de armas, de objetos roubados ou contrabandeados, dentre outros, sobrevive melhor sem regulação, aproveitando-se da fraqueza dos Estados nacionais.As gangues, as quadrilhas -como no caso do Rio de Janeiro, o Comando Vermelho ou o Terceiro Comando -, são expressões locais que se apóiam em verdadeiros sistemas de troca e produção.Por isso, as mais expressivas organizações do crime que atuam no varejo, o fazem nas áreas urbanas mais dinâmicas, onde se processa a atividade econômica e onde o poder aquisitivo se concentra.Mas, por que e como se dá a presença dos pobres ou da população de baixa renda na organização e no exercício desse lucrativo comércio?Essa integração ocorre de forma muito peculiar.Cresce e se intensifica numa conjuntura em que o desemprego estrutural com o qual essa faixa da população convive historicamente se acirra, por causa dos mecanismos de reestruturação produtiva que privilegiam as mudanças tecnológicas e o barateamento do componente da mão-de-obra nos fatores de produção.Isso faz acelerar os processos de exclusão do trabalho e, conseqüentemente, de exclusão social e moral de uma vasta camada da população.Esse fenômeno cresce mundialmente pari passu com as profundas mudanças nas relações de produção.Ao 'incluir' os pobres e particularmente os jovens, a organização criminosa e ilegal de contrabando de armas e de tráfico de drogas posiciona-os no front dos combates, no lugar do risco e de maior vulnerabilidade.Ao agir dessa forma passa a usufruir, assim, além da mais-valia de seu trabalho, do privilégio do anonimato e da vida abastada, à custa deles, ao mesmo tempo em que torna possíveis seus sonhos de consumo.É importante ter em mente, portanto, que as formas mais visíveis da violência social no Brasil de hoje, com ênfase no crescimento do tráfico de drogas, denunciam o fim de uma época desenvolvimentista e a
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