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É a sexualidade que faz com que um homem tenha uma história.Se a história sexual de um homem oferece a chave de sua vida, é porque na sexualidade do homem projeta-se sua maneira de ser a respeito do mundo, quer dizer, a respeito do tempo e a respeito dos outros homens.Maurice Merleau-Ponty, A fenomenologia da percepção (2006, p. 218) Abro este dossiê dedicado à sexualidade entre os povos indígenas das terras baixas da América do Sul com as palavras do filósofo Maurice Merleau Ponty, pois elas expressam belamente o respeito e cuidado com que o tema precisa ser tratado.Se a sexualidade oferece a chave da temporalidade e da interação entre um ser humano e o mundo, ela não pode ser considerada uma questão marginal na etnologia nem um assunto que pode ser julgado negativamente ou mantido em silêncio.De acordo com o autor, "a sexualidade faz com que um homem tenha uma história".Entendendo que seu uso do genérico "homem" se refere ao ser humano, o qual, através da ação do desejo sexual na sua vida, entra no tempo, se singulariza e se comunica com outros seres para os quais a sexualidade é também uma força de subjetivação, de interação e de temporalização.As ressonâncias dessa abordagem fenomenológica da sexualidade nas preocupações que animam os debates da etnologia amazônica são várias.A ideia de que a sexualidade coloca em movimento uma abertura à alteridade, corporal, social e temporal, nos convida a pensar as possíveis interconexões entre as cosmologias indígenas e a produção de subjetividades diferenciadas, genderizadas e vivenciadas no desejo por outrem. O caso dos estudos da sexualidade entre os CanelaEncontrei a citação de Merleau Ponty, acima, ao ler a monografia de doutorado de Rose-France de Farias Panet (2010, p. 14), uma das poucas teses de etnologia recentes inteiramente dedicadas ao estudo da sexualida-
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