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conversações com Isabelle stengers Introdução: uma pensadora trickster Da química à história da química e da física.Da historiografia à filosofia.Da filosofia à bruxaria e de volta às ciências e à política.Ou melhor, à cosmopolítica, caracterizada por nossa autora em sua obra cujo nome carrega esse neologismo, que se coloca como alternativa à ideia de um cosmopolitismo kantiano/habermasiano.Eis um resumo não autorizado de Isabelle Stengers, pensadora belga sediada na Universidade de Bruxelas e que figura entre as mais destacadas da intelectualidade contemporânea.E de tal monta que se tornou muito difícil não passar por ela quando se trata de enfrentar os problemas candentes da atualidade a partir das relações entre ciência, política e mercado industrial.Que o digam Bruno Latour, Eduardo Viveiros de Castro, Donna Haraway, Vinciane Despret e tantos outros e outras.E que o diga também a antropologia.Ou pelo menos aquela interessada em despertar dos sonambulismos disciplinares-institucionais e deitar atenção sobre fenômenos de simbiose e amálgama entre domínios que mais e mais perdem suas antigas barreiras de proteção e isenção.Como se mover em realidades que atravessam produções científicas, interesses políticos e desideratos mercadológicos?Como romper fronteiras ao mesmo tempo em que atendendo à "restrição leibniziana", esposada pela autora, que afirma honrar a produção do conhecimento que não ofenda, sem mais, os "sentimentos estabelecidos"?Como fazer a crítica interna às ciências sem com isso atar-se à inconsequente clausura internalista do domínio científico?Como, enfim, trazer as ciências de suas torres de marfim e pô-las em presença de suas consequências?As ciências serão capazes de enfrentar as novas objeções e provações que vão emergindo, não raro violentamente, em domínios obsoletamente ditos não-científicos?Como fazer com que as "perguntas viajem" para além das interrogações oficiais de cada nicho ou ecologia de conhecimento?A antiga Razão saberá concatenar-se com as novas razões para fundar ou assumir as novas objetividades?Que não se espere de Stengers uma solução normativa, geral e abstrata "de uma vez por todas", mas sim sempre rente aos "acontecimentos" e "aventuras" que se singularizam "a cada vez", para aqui retomarmos essa oposição -de uma vez por todas versus a cada vezque ela e Prigogine tanto reiteram em A nova aliança -metamorfose da ciência, de 1979.Em todo caso, é a própria velocidade da produção científica (que vinha e segue acompanhando a velocidade autocentrada da lógica de mercado) que aí mesmo se vê afetada e desafiada.Mas desafio sistêmico, porque toca aos próprios hábitos de pensamento e prática constituídos pela modernidade que, nos termos de Latour, purificou-se entre ciência e política como condição Rev. Antropol.São Paulo, Online, 59(2): 155-186 [agosto/2016] cOnveRSAçõeS cOm ISAbelle StengeRS 157 para acelerar, sem tabus, o trânsito entre ciência e política.Trânsito que se torna cada vez mais visível e transbordante de consequências ou já o suficiente para que o "acordo moderno" (ainda Latour) já não possa mais permanecer o mesmo.Sob a divisa de novos ou últimos tempos, é talvez a própria matriz civilizacional do Ocidente moderno que aí se acha em causa.Espécie de personagem trickster, Stengers vale-se de sua expertise híbrida para, com as devidas hesitações, pisar ali onde os anjos não ousam pisar (expressão apropriada por Gregory Bateson e da qual ela gosta de lembrar).Ou, se quisermos, dançar nos salões onde a modernidade apagara suas luzes.Abrir os salões, arejar sua atmosfera, mas sem com isso destruí-los: a iconoclastia exige precisão e trato fino.Resistir às novas barbáries exige novos modos de resistir.Exige novas exigências e inclui resistir às resistências prontas e estabilizadas, despir-se das resistências prêt-à-porter.Em seu pensamento ventilam os sopros de Deleuze e Guattari, Whitehead e Serres, Galileu e Prigogine, Latour e Haraway, e tantos outros luminares que, aliados, não lhe proíbam as sombras e as bruxas -ao contrário, abram-se a estas.E ao humor
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