ApresentaçãoEste livro é dedicado inteiramente à história da saúde, da medicina e das doenças na América Latina e no Caribe e resulta de um empreendimento que se iniciou com uma conversa dos dois organizadores no Rio de Janeiro no final do ano de 2000.A idéia inicial que perseguimos ao longo de três anos foi oferecer ao leitor brasileiro um livro inédito que reunisse trabalhos e autores que o instigassem a refletir sobre as relações entre saúde, doença e sociedade na América Latina em perspectiva histórica, espelhando o estado da arte desse campo emergente e constituindo uma referência, e mesmo um livro-texto, para profissionais, professores e estudantes das áreas de história, saúde coletiva, medicina, ciências sociais e humanidades em geral.Desde o início, a Editora Fiocruz acolheu nossa proposta e forneceu suporte a um empreendimento acadêmico e editorial que se sabia complexo e trabalhoso.Por meio de inúmeras trocas de correios eletrônicos e algumas reuniões durante seminários internacionais, selecionamos textos já publicados, e mesmo consagrados, no Brasil e no exterior; para alguns autores, solicitamos atualizações e adaptações; para outros, encomendamos trabalhos originais.A nossa escolha recaiu em seis trabalhos sobre o Brasil e mais oito experiências nacionais que enfocam o período que vai do final do século XIX às últimas décadas do século XX.Reunimos autores de diferentes inscrições disciplinares e pertencentes a diversas instituições acadêmicas da América Latina e da América do Norte.Ainda que seja desnecessário esclarecer que toda seleção é incompleta, acreditamos que esta representa bastante fielmente as direções e possibilidades que está tomando o campo de estudos da saúde e da doença na América Latina e no Caribe em pers-enfermeiras e antropólogos.Se a medicalização de nossas sociedades implicou relações intrinsecamente hierárquicas e disciplinadoras, e com subordinações múltiplas, a produção de conhecimento, as estratégias de controle, os atos de cuidar e as práticas de cura portam também dissonâncias, insubordinações, contestações, negociações, consensos, diluições, ambigüidades, recriações e positividades.Assim, a assunção da assimetria de poder nas relações historicamente instituídas nessas dimensões é o ponto de partida das análises, não sua conclusão.Em seu conjunto, os ensaios deste livro descortinam um leque polifônico no qual as interações entre indivíduos, grupos, instituições e governos sobre os sentidos da saúde, da doença e dos ciclos de vida questionam fronteiras, adquirem múltiplas direções e podem ter resultados distintos, não-antecipados, divergentes, mutáveis e culturalmente contingentes a depender de cada contexto histórico e nacional específico.Por último, a doença e a saúde como objetos nessas dimensões são também recursos analíticos para se abordar de dilemas e questões cruciais da história e das sociedades latino-americanas e caribenhas: o papel do Estado na produção do bem-estar da população, as possibilidades e os modos de inserção da América Latina no mundo moderno e civilizado, as relações com os demais latino-americanos e com os americanos do norte, os padrões de políticas públicas em diferentes ordenamentos constitucionais e políticos, a constituição de movimentos e ideologias nacionalistas, os processos de construção de autoridade pública, de centralização, burocratização e profissionalização, os possíveis arranjos institucionais das ciências, os impactos do autoritarismo e as possibilidades de uma ordem democrática, o papel dos intelectuais e do pensamento científico e a dinâmica das relações raciais.Em especial, a questão que perpassa todas as narrativas do livro, como os desafios do controle, da incorporação e da integração de vastos contingentes populacionais, de imigrantes e de grupos sociais e étnicos.De modo mais direto, o desafio da construção de uma identidade nacional em relação a múltiplos recortes identificadores em meio a sociedades em geral caracterizadas pela desigualdade, pobreza e miscigenação e com marcas históricas de colonialismo, violência e escravidão.A natureza tropical com suas facetas infernais e paradisíacas, a urbe moderna e suas mazelas e esperanças, a doença e suas marcas, o corpo doente e seus fluidos, a morte e os mortos, as crises epidêmicas, as endemias onipresentes e as promessas e possibilidades de sanidade e salubridade e também os esforços dos médicos, da imprensa e das instituições públicas em desqualificar, combater e controlar esses praticantes.Esse convívio fornece indícios da compreensão da população sobre os processos de saúde e de doença e de suas escolhas diante de múltiplas ofertas de assistência e cura.Uma rediscussão das relações entre a filantropia norte-americana e a América Latina e Caribe, objeto de inúmeros trabalhos sobre a história da saúde na região, está no centro do capítulo de Steven Palmer.Ao abordar o encontro das campanhas de combate à ancilostomíase da Fundação Rockefeller com as políticas nacionais de educação e saúde da Costa Rica entre 1914 e 1921, o autor narra como indivíduos, grupos intelectuais e instituições costarriquenhas foram capazes de transformar os esforços da Fundação em um mecanismo de consolidação de um projeto de saúde pública já existente na Costa Rica.A precedência de políticas autóctones significou que setores-chave do governo e da sociedade estivessem mais conscientes do que os norte-americanos sobre o que a campanha contra a ancilostomíase poderia oferecer ao país, permitindo-lhes dela se apropriar e incorporá-la numa matriz institucional desenhada localmente.Em seu ensaio, Luiz A. de Castro-Santos discute os impactos e os significados do movimento sanitarista e das reformas sanitárias no crescimento dos aparelhos de Estado, na sua interiorização e no surgimento de uma ideologia de construção nacional no Brasil da Primeira República.A discussão é construída pela comparação dos processos de reforma dos serviços sanitários em alguns estados brasileiros a partir de variáveis tais como o lugar da política de imigração de trabalhadores e de preservação e reprodução da mão-de-obra nas agendas das elites, a dinâmica políticopartidária e a tradição médica e sanitária.A análise da combinação específica de fatores econômicos, políticos, ideológicos e científicos explica os ritmos, os tempos e os resultados de cada experiência estadual e apresenta um quadro interpretativo do sanitarismo brasileiro com mais nuances, variações e complexidades.As condições e as possibilidades da integração da medicina ocidental com a cultura indígena em programas de saúde pública é o tema do trabalho de Marcos Cueto sobre o Peru.As ações do médico Manuel Núñez Butrón na década de 1930 na região de Puno são analisadas como uma possível e criativa articulação entre conhecimento médico moderno com a cultura e práticas indígenas, resultando no envolvimento comunitário e de povos indígenas em campanhas de educação, de combate ao tifo epidê-Referências Bibliográficas ARMUS, D. Cultura, historia y enfermedad.A modo de introducción, In: ARMUS, D.
Stored only when both papers are in the corpus — 34 citations exist upstream.
Imported from OpenAlex (CC0) — nothing here is generated.