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Recôncavo: território, urbanização e arquitetura | 207 Até onde vai o Recôncavo?A pergunta acima coloca uma questão conceitual importante, onde começa e onde acaba o Recôncavo.Acreditamos que não se pode falar de um só Recôncavo.Como observou Milton Santos, o Recôncavo foi sempre mais um conceito histórico, que uma unidade fisiográfica.(SANTOS, 1998, p. 62) Ele variou no tempo, crescendo e diminuindo em função dos ciclos econômicos, mas deixando uma herança cultural, material e imaterial, que sobreviveu a estes mesmos ciclos.Dentro desta perspectiva tentaremos seguir a evolução do Recôncavo enquanto uma cultura regional formada nas relações de trabalho escravocrata da agroindústria açucareira, que durou três séculos e meio, em meio a crises periódicas, mas também experimentou na segunda metade do século XX o ciclo do petróleo e da industrialização.Territorialmente esta economia não se restringiu à área do massapé.Envolvia, também, os tabuleiros do tabaco, a agricultura de subsistência e a produção de materiais de construção, no Baixo Sul, e a pesca em todo o litoral da Baía de Todos os Santos.Mas este sistema se dissolve na primeira metade do novecentos, com a crise da agroindústria açucareira e a reestruturação das redes de comunicação e transportes.Durante a segunda metade do século XX, o Recôncavo inicia outro ciclo econômico, o da lavra do petróleo e da industrialização, que contempla apenas a região nordeste da Baía de Todos os Santos.Por entre esses surtos e polos econômicos, sempre existiu uma atividade de subsistência representada pela pesca, pelo extrativismo, pelo criatório e agricultura familiar, e pelo artesanato que deu continuidade e caráter a esta cultura regional.O Recôncavo apresenta, assim, uma grande diversidade local dentro de uma unidade regional.Unidade que tem como principais fatores a Cidade do Salvador e a Baía de Todos os Santos, como observou Costa Pinto (1998; BRANDÃO, 1998a, p. 108). O Recôncavo físicoCom o nome de Recôncavo é conhecida desde o século XVII a faixa de terra formada por mangues, baixios e tabuleiros que contornam a Baía de Todos os Santos.Um "anfiteatro" com três degraus tendo como palco a Cidade do Salvador e como "orquestra" a Baía de Todos os Santos.O Recôncavo é uma região de topografia baixa, com exceção da zona de Cruz das Almas, onde a altitude média é de 200m.Geologicamente a região é formada por uma fossa tectônica preenchida por sedimentos cretáceos que segue em direção NE, terminando no baixo São Francisco.Esta faixa sedimentar argilosa ou argilo-arenosa representa 60% da área do Recôncavo e é limitada a leste pela Falha de Salvador e a oeste pela Falha 208 | Baía de Todos os Santos de Maragogipe.Os restantes 40% são constituídos por dois maciços cristalinos.(MATTOSO, 1978, p. 34) Na área de sedimentação cretácea ocorrem solos argilosos profundos, poucos sujeitos à erosão, conhecidos localmente como massapés e classificados como vertsolos.Eles derivam da decomposição do calcário sob clima tropical úmido. 1 São solos de cor escura, muito ricos em materiais orgânicos, pouco permeáveis, mas que conservam a umidade durante muito tempo.Estes solos quando úmidos sofrem expansão e tornam-se muito pesados e plásticos.Quando secos, endurecem e contraem-se, rachando.Por esta razão são muito difíceis de serem lavrados mecanicamente. 2 A Baía de Todos os Santos, um antigo vale afogado, apresenta rias, como o Iguape, e nela deságuam alguns rios navegáveis, como o Paraguaçu, o Jaguaripe e o Subaé.Foi neste porto natural, situado no meio da costa brasileira, que os portugueses fundaram, em 1549, a sede do governo colonial, depois do fracasso de outras tentativas de colonização do país.A capital administrativa e praça-forte foi construída no lado interno do maciço cristalino que separa a baía do Atlântico, na crista da falha de Salvador, tendo a escarpa como muralha defensiva.O Recôncavo histórico No início, eram os tapuias em volta da baía, depois surgiu a povoação do Pereira (1536) e a partir de 1549 a cidade do Salvador.A partir de 1559, os portugueses ampliam seu domínio territorial através de duas guerras contra os índios e os expulsam de parte dos vales de Jaguaripe e Paraguaçu para ali introduzirem a cana-de-açúcar.Menos de quatro décadas depois da fundação de Salvador, Gabriel Soares de Souza contava no Recôncavo 16 freguesias, 62 igrejas, 3 mosteiros de religiosos, 8 casas de cozer meles, 36 engenhos moentes e correntes, dos quais 15 eram movidos por bois.Outros quatro engenhos estavam sendo construídos e a produção de açúcar ultrapassava as 120.000 arroubas.(SOUZA, 1971, p. 162) No final do século XVI, o rio Paraguaçu, desde o lagamar do Iguape até o seu trecho encachoeirado, estava povoado em ambas as margens.Paralelamente às funções primitivas -administrativa e militar -crescia a função portuária de Salvador com a exportação do açúcar e a importação de escravos africanos para produzi-lo e produtos manufaturados do Reino.Nos terrenos impróprios à cana-de-açúcar, surgiu uma lavoura ancilar, o tabaco, que era trocado por escravos na costa da África.Esta lavoura se desenvolveu nos tabuleiros, entre Cruz das Almas, 1 Situado a 13º de latitude sul, o Recôncavo apresenta um clima caracterizadamente tropical.Nas ilhas e na área situada a SW da baía a precipitação pluviométrica anual é superior a 2.000mm.
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