Estas páginas conformam a primeira parte de um artigo preparado por ocasião da participação da Profª Urpi Montoya Uriarte na disciplina "Apreensão da cidade contemporânea", ministrada pela Profª Paola Jacques no PPGAU/UFBA, em abril de 2012. 1 É louvável o entusiasmo que a etnografia vem suscitando, nos últimos anos, em diversas áreas de conhecimento: se fala muito em "fazer etnografia", adotar a "perspectiva etnográfica", "etnografar" isto ou aquilo.Parece que todo mundo pode fazer etnografia.Até uma antropóloga, Barbara Tedlock, afirma isso ao dizer que "no mundo multicultural e rapidamente mutante de hoje, todos temos nos tornado etnógrafos" (apud CLIFFORD, 1995).Em artigo recente, Mariza Correia conta como se surpreendeu ao, num congresso reunindo geógrafos, educadores, filósofos, sociólogos, perceber o quanto a etnografia estava na moda e quão difundida estava a ideia segundo a qual "todos podem 'fazer etnografia', e a todos é desejável uma 'perspectiva etnográfica'" (PEIRANO, 2008, p. 3).Com efeito, entendida apenas como método, ela estaria acessível a qualquer pesquisador em busca de algum.Mas, precisamente o que Peirano defende é que ela não é apenas uma metodologia ou uma prática de pesquisa, "mas a própria teoria vivida /.../ No fazer etnográfico, a teoria está, assim, de maneira óbvia, em ação, emaranhada nas evidências empíricas e nos nossos dados."(2008: 3).A teoria e a prática são inseparáveis: o fazer etnográfico é perpassado o tempo todo pela teoria.Antes de ir a campo, para nos informarmos de todo o conhecimento produzido sobre a temática e o grupo a ser pesquisado; no campo, ao ser o nosso olhar e nosso escutar guiado, moldado e disciplinado pela teoria; ao voltar e escrever, pondo em ordem os fatos, isto é, traduzindo os fatos e emoldurando-os numa teoria interpretativa.O que é fazer etnografia para os antropólogos Ponto Urbe, 11 | 2012 1 2Mas afirmar que o campo é perpassado pela teoria não significa dizer que ele está submetido a ela.Por definição, a realidade superará sempre a teoria.Em outras palavras, o campo irá sempre surpreender o pesquisador.Sem cair em contradição, podemos afirmar que se um campo não nos surpreender, é porque não fomos o suficientemente bem formados!Justamente porque a formação antropológica consiste em nos abrirmos para a desestabilização: "os discursos e práticas nativos devem servir, fundamentalmente, para desestabilizar nosso pensamento (e, eventualmente, também nossos sentimentos).Desestabilização que incide sobre nossas formas dominantes de pensar, permitindo, ao mesmo tempo, novas conexões com as forças minoritárias que pululam em nós mesmos."(GOLDMAN, 2008, p.7). 3Ou, em palavras de Favret-Saada (1990, apud GOLDMAN, 2008), o que caracterizaria o antropólogo é essa formação para "ser afetado" por outras experiências.Por isso é que vamos a campo munidos de teorias e voltamos retroalimentando-as, transformando-as: "Agitar, fazer pulsar as teorias reconhecidas por meio de dados novos, essa é a tradição da antropologia" (PEIRANO, 2008: p. 4). 4Então, nem todos podem ser etnógrafos.Há de haver uma formação teórica em antropologia, essa ciência que se dedica a "testemunhar outras humanidades" (DA MATTA, 1992, p. 58) e "apregoar o anômalo": "Examinar dragões ; não domesticá-los ou abominá-los, nem afogá-los em barris de teoria, é tudo em que consiste a antropologia /.../ Temos procurado, com sucesso nada desprezível, manter o mundo em desequilíbrio, puxando tapetes, virando mesas e soltando rojões.Tranquilizar é tarefa de outros; a nossa é inquietar.Australopitecus, Malandros, Cliques Fonéticos, Megalitos: apregoamos o anômalo, mascateamos o que é estranho, mercadores que somos do espanto."(GEERTZ, 2001, p. 65) 7Mas eu acredito, por definição, que temos de desconfiar de tudo, principalmente das modas.Enquanto fora da Antropologia, a etnografia está na moda, dentro da disciplina que a engendrou -a Antropologia -ela passa, há um certo tempo, por uma série de revisões críticas, reflexões epistemológicas e hermenêuticas.A etnografia é o método da O que é fazer etnografia para os antropólogos
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