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Desfazer-se dos proprios golpes... Sempre quis iniciar um texto com uma citacao de Friedrich Nietzsche (2003) do livro Ecce Homo – de como a gente se torna o que a gente e. Acho que com este livro chegou o momento auspicioso: Minha praxis na guerra pode ser resumida em quatro sentencas. Primeiro: eu apenas ataco coisas que sao vitoriosas – caso for necessario eu espero ate que elas sejam vitoriosas. Segundo: eu apenas ataco coisas contra as quais jamais encontraria aliados, contra as quais tenho de me virar sozinho – contra as quais tenho de me comprometer sozinho... Jamais dei um passo em publico que nao comprometesse: e esse o meu criterio da acao correta. Terceiro: eu jamais ataco pessoas – eu apenas me sirvo da pessoa como de uma poderosa lente de aumento, atraves da qual e possivel tornar manifesta uma situacao de necessidade comum, mas furtiva e pouco tangivel. ... Quarto: eu apenas ataco coisas contra as quais todo o tipo de diferenca pessoal e excluido, contra as quais nao existe qualquer segundo plano relativo a mas intencoes. Pelo contrario, atacar e uma prova de bem-querer em mim e, conforme a circunstância, de agradecimento. (p. 38) Nao posso negar que o trabalho que o leitor encontrara aqui floresce de retumbantes intensidades de ataque. Vontade de atacar, em um sentido bem ingenuo, aqueles que estao a reinar. E e preciso ser claro: o primeiro ataque foi lancado contra as neurociencias. E foram golpes disparados pelo temor. Que forca e essa, dessas novas ciencias do cerebro, que avancam sobre os campos da Psicologia, desfazendo o que por muito ja havia se legitimado? Eu precisava alertar, ardia por resistir! Enquanto psicologo, psicologo social, detentor de suposta critica, devia descascar as amarras do poder e da frieza cientifica. Escolhi como motor de pensamento para esse trabalho Michel Foucault, filosofo que muito se inspirou em Nietzsche. Assim, com um arsenal ao meu dispor, caminhei em direcao ao opositor. Mas durante os golpes desferidos no inimigo, suavemente abria-se uma fenda em minha propria escrita. Sem perceber, tamanha a concentracao no oponente, discursos ha tanto naturalizados no campo da Psicologia, aos poucos se desmanchavam como as muralhas de um castelo feito de areia. Mudei de posicao e passei a debelar contra a ciencia psicologica – esse foi meu segundo ataque. Nocoes arraigadas como de interioridade e clinica podiam agora em um leve sopro apagar, espalhar, voar. Poderia a Psicologia (e seus objetos de analise) sobreviver diante das mutacoes epistemologicas, ontologicas e de intervencoes operadas pelas neurociencias? Por isso quis entender como a Psicologia se torna o que realmente ela e. Melhor ainda, o que ela se tornou e o que esta em vias de deixar de ser na relacao com as neurociencias. E como nesse processo queria me virar sozinho, me comprometer sozinho, o ataque, ao fim, como prova de gratidao de minha pessoa, nao poderia terminar sendo desferido em mais ninguem, senao em mim mesmo. Terceira e ultima fase da luta seria questionar a travessia do proprio discurso que criei. Perguntar-me sobre o lugar da psicologia social, das armas que dela me utilizo e de sua implicacao sobre os rumos da Psicologia com as Neurociencias. Seria a unica alternativa uma analise critica do negativo, que desfaz e desmancha, ou teriamos, quase como que um contra-ataque, uma critica da potencia dos processos de conhecimento, da verdade e da conducao de nos mesmos? Talvez por causa desse movimento, de um tipo de eterno retorno, de ritornelo, que me seja tao dificil saber como e ate que ponto devo agradecer Michel Foucault, ja que fui pego de surpresa na sua armadilha do desaparecimento do sujeito: “Nao haveria existido, portanto, inicio; e em lugar de ser aquele de quem procede o discurso, seria eu muito mais uma pequena lacuna no acaso de seu desenvolvimento, o ponto de sua possivel desaparicao” (Foucault, 2009, p. 11). Esta e uma escrita que se fez, por mais incrivel que ainda me pareca, no constante desfazer de sua suposta constituicao. E da minha tambem...
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