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Outras cidades, outros carnavais 1 O tema do carnaval das escolas de samba foi explorado nos últimos anos em diferentes abordagens.Por serem agremiações que organizam uma série de grupos e ofícios, múltiplos planos (Cavalcanti & Gonçalves, 2015) de análise têm sido matéria de trabalhos sociológicos, antropológicos, historiográficos, musicológicos, entre outras perspectivas acadêmicas.Maria Laura Cavalcanti, em sua célebre obra Dos Bastidores ao Desfile (2006), que já inspirou muitos estudos posteriores, traz uma das ideias importantes para a compreensão desse fenômeno social.Sua proposta se baseia em encarar o carnaval das escolas por meio de três prismas: o da dimensão agonística, que possibilita abordar a grande rivalidade durante o concurso de desfiles; o da forma artística altamente complexa, organizada a partir de um tema geral (chamado de "enredo") e transposta em linguagens plásticas e musicais, que dá contorno à dimensão espetacular e festiva do cortejo; e o da dimensão do desfile como um canal de expressão e mediação de processos urbanos mais amplos 1 .2 Apostando nesses prismas como apropriados para trabalhar o universo das escolas de samba e suas interconexões com outros campos da vida, e partindo principalmente do terceiro aspecto, mas não ignorando os outros dois, propomos aqui o exercício de apontar possíveis processos que atravessam, relacionam, tensionam ou retroalimentam o carnaval de São Paulo -especialmente da região metropolitana, mas, quando possível, trazendo pistas também sobre aspectos dessa manifestação no interior e litoral paulistas.Para além do Anhembi: as escolas de samba de São Paulo e outras práticas de s... Ponto Urbe, 23 | 2018 1 3Vale mencionar que há uma desproporção evidente quando nos debruçamos sobre os registros do carnaval das escolas de samba no estado de São Paulo -o volume mais expressivo de informações documentais e bibliográficas acessíveis e existentes sobre o carnaval das escolas de samba paulistas concentra-se especialmente na experiência vivenciada na capital que, por isso, será privilegiada.Mas a abordagem aqui proposta tem de saída ainda o desafio de lidar com outra desproporção regional de estudos sobre o tema: enquanto o olhar para esse fenômeno, no Rio de Janeiro, ganhou registros dos mais variados e por diferentes lentes, não se pode dizer o mesmo de São Paulo, cujos estudos e bibliografias de referência existem em volume menor e, consequentemente, cobrem menos aspectos e dimensões do fenômeno. 4Certamente, esse desequilíbrio no registro de memórias sobre o carnaval das escolas de samba ocorre, em grande parte, em função da evidência e projeção que as escolas do Rio de Janeiro (capital e cidades próximas) conquistaram ao longo do século XX, o que fez inclusive com que seu modelo, mesmo que em parte, inspirasse outros carnavais, incluindo os paulistas.Durante o processo tardio de oficialização do apoio municipal às agremiações da "capital da garoa", por exemplo, grande parte da regulamentação que organizava à época os desfiles das escolas foi adotada a partir do regulamento carioca.Esse fato somado a todo um imaginário que conferiu uma espécie de "selo de autenticidade" ao carnaval carioca, em detrimento de outros carnavais, contribuiu para por vezes desacreditar o carnaval de São Paulo até mesmo entre as pessoas que participam ativamente de sua organização.Tanto o carnaval da cidade como o do estado, recorrentemente, foram e ainda são vistos como inautênticos, sendo comparados por alguns a uma mera tentativa de reprodução das agremiações da "cidade maravilhosa" (Azevedo, 2010;Azevedo, Gabriel Oliveira et alli, 2018). 5Contudo, como Cavalcanti ressalta, "(...) as escolas de samba têm seu próprio regime de autenticidade cultural e rearticulam-se sempre com a produção de identidades locais as mais diversas, cujo conteúdo e significado cultural não pode ser determinado de antemão" (Cavalcanti, 2015: 231).Assim, apesar da correspondência entre os formatos institucionais e as próprias apresentações públicas, as escolas de samba sempre terão um conteúdo distinto e gozarão de significados construídos por meio das relações existentes em seu contexto político e social. 6Por isso, olhar para os processos urbanos acessíveis por meio do carnaval das escolas paulistas pode ser um bom exercício para entender como essa festa organiza e é organizada por uma série de relações sociais mais amplas, que dão sentidos particulares a sua existência.O grande ritual urbano dos desfiles de carnaval, nessa perspectiva, seria o momento ápice no qual grupos, saberes e práticas estão intermediados, em disputa, em sistemas de troca, entre outras formas de correlação, que podem iluminar aspectos profundos da experiência social contemporânea (Cavalcanti, 2015: 9).Os enredos que inspiram os desfiles, inclusive, são peças-chave na orientação desse espetáculo pois "(...) promovem a cada ano imensas conversas urbanas sobre os mais diferentes assuntos" (Cavalcanti, 2015: 25) e problematizam até a noção de modernidade nas diferentes cidades, metrópoles ou não. 7Vale pontuar, ainda, que a trajetória do carnaval em São Paulo se entrelaça com a história e trajetória dos grupos negros na cidade e no Estado: as escolas de samba apontam para uma rede de sociabilidades, com circuitos e fluxos 2 específicos, práticas e espaços marcadamente negros.Por isso, olhar para a história das escolas de samba e de seus sujeitos também é identificar espaços de territorialização de memórias negras Para além do Anhembi: as escolas de samba de São Paulo e outras práticas de s...
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